Raras são as pessoas nascidas após 1990 que não ouviram falar na Intel, maior fabricante de processadores do mundo. Nomes como Pentium e Core i5, por exemplo, são tão (ou mais) conhecidos quanto Volkswagen e Chevrolet.

Poucos, no entanto, talvez saibam de dois fatos interessantes sobre a Intel: o primeiro é que a mesma foi fundada em 1968, junto com a revolução tecnológica que criou os computadores atuais, respectivamente por um dos principais inventores do ‘microchip’ (Robert Noyce) e por um empresário que simultaneamente também criou a Lei de Moore – (Gordon Moore), lei essa que (com as devidas ressalvas) continua valendo até hoje, cinquenta anos depois, ditando que a capacidade dos computadores dobra a cada dois anos, em média. O segundo fato é que até 1981 a Intel nem ligava para processadores, era uma fabricante de memórias!

Num processo muito interessante e bem documentado no livro Only The Paranoid Survive, o ex-CEO da Intel Andy Grove explica como foi que, em pouquíssimo tempo, a Intel abandonou o negócio de memórias para se tornar a líder mundial em processadores.

Parece que a lição, no entanto, pode estar sendo esquecida.

Em primeiro lugar, por quê a Intel praticamente ficou de fora da revolução dos smartphones, cujos processadores usam em sua grande maioria uma arquitetura oposta à utilizada pela Intel, baseada no padrão ARM RISC. Só isso já seria o suficiente para acender vários alarmes e planos de ação mas até hoje a Intel continua inexpressiva nesse mercado.

Por quê? Inúmeros fatores, sua aposta é tão boa quanto a minha. De fato, minha opinião pessoal é que a Intel não tinha (e não tem) capacidade de ditar as regras para as grandes fabricantes de celulares (Apple, Samsung e LG) como tem o hábito de fazer na indústria de PCs. Desacostumada a bajular, seduzir, encantar e em geral rastejar para outras empresas, a Intel perdeu esse bonde. Mas essa é só a minha opinião.

Agora, esse bonde perdido pode adquirir a proporção de um trem intercontinental passando por cima do mercado da Intel. E você, que usa tecnologia, pode ter muito a ganhar com isso.

Essa história começa com uma traição e termina com uma revolução, por enquanto. Tem mais para vir. Sua vida pode mudar para melhor, qualquer que seja o desfecho.

Já imaginou usar um notebook levíssimo, com uma bateria que dura mais de 20 horas, que carrega super rápido e que você não precisa esperar ligar quando precisar por quê, na prática, ele nunca precisa ser desligado? E ainda por cima rodando Windows 10?

Não, eu não estou louco. E nem sonhando.

A “traição” que falei mais cedo foi praticada pela Microsoft. Entenda-se que o termo traição é usado aqui de forma livre, para dar efeito dramático, e nunca para insinuar que a Microsoft praticou alguma ação ilegal ou antiética. De fato, é um elogio à empresa: a companhia pensa como ninguém em como maximizar o valor para o acionista e no final do dia é isso que conta.

Pois bem: qual foi a traição? Pela primeira vez na história temos uma versão completa e 100% funcional do Windows usando um processador que, além de não ser Intel, é usado quase que exclusivamente em smartphones. Isso, ainda por cima, depois que a Intel declarou que seus processadores de 6a geração – Skylake – não iriam funcionar com versões anteriores do Windows pois eles e o Windows 10 haviam sido ‘feitos um para o outro’.

Ouch. Isso deve ter doído.

E, depois da traição, a revolução: HP e ASUS anunciaram o lançamento de dois notebooks conversíveis (equipamentos com tela touch e que podem ser usados como tablets, mas que possuem teclado completo e formato de notebook) que, pasmem, usam o Snapdragon 835 como processador. Para quem se liga nos detalhes, Snapdragon é um SoC (System on Chip – computador em um só chip) que a Qualcomm fabrica há anos e que equipa os melhores smartphones do mercado, de todas as marcas. O 835 é o último da série, equipando entre outros o Samsung Note 8, e como os demais da série Snapdragon adotam uma arquitetura ARM RISC, arquitetura essa que é anátema para Intel e da qual a Microsoft costumava correr. Costumava, por que agora esses notebooks foram lançados com Windows 10 e eles podem rodar qualquer programa Windows. E muito bem, obrigado.

Ligam instantaneamente, suas baterias duram mais de 20 horas, rodam muito bem aplicativos corporativos, web, email, processadores de texto e planilhas, e aí já temos uns 90% dos usuários de computador do mundo. Como cereja do bolo e consequência do uso do SoC Snapdragon 835, também podem acessar a internet a velocidades gigabit pela rede de celular, onde isso estiver disponível. Isso é, grosso modo, 100 vezes mais rápido do que estamos habituados.

E custam mais barato que um Samsung S8 e muito mais barato que um iPhone X.

Se você não tem interesse em um notebook que pesa menos de um quilo e meio, barato, rápido, com bateria de longa duração, touch-screen e sei lá mais o quê, volte para a vila Amish de onde você não devia ter saído.

E a Intel? Mares tempestuosos pela frente, na minha opinião. Hoje temos muito, mas muito, mais smartphones no mercado do que computadores com chips Intel. Várias pessoas já estão usando seus smartphones como principal instrumento de trabalho (o Samsung S8 até já tem um acessório que o transforma em um micro, com teclado e mouse) e esse mercado está quase todo fora das mãos da Intel. E agora os notebooks podem ir pelo mesmo caminho.

E, como se a traição e a revolução não fossem o bastante, a Qualcomm Snapdragon fez uma parceria com a AMD para trazer a plataforma RYZEN desta última para o mundo dos smartphones e novos notebooks, que ainda serão lançados. É a arquiínimiga da Intel aliada à uma grande ameaça.

Sobra o quê para a Intel liderar? O mercado de servidores (dos quais o mundo precisa cada vez mais, embora o ser humano normal não os veja) e desktops (para gamers e profissionais especializados, um mercado de nicho). Não é pouca coisa, mas é muito menos do que a dominância que a Intel tem hoje. Óbvio que estamos há anos de acontecer algo assim e vamos ver muitos selinhos ‘Intel Inside’ ainda. Ainda que as revoluções em tecnologia costumem a ser rápidas e o mundo esteja precisando de novidades.

Mares tempestuosos, de fato, é o que me parece. Para uma companhia que costumava dizer que apenas os paranoicos iriam sobreviver, dormir em berço esplêndido pode ser uma péssima ideia.

 

Colaborador dessa coluna: Danilo Fernandes

Danilo José Fernandes
50 anos, abriu sua primeira empresa aos 17. De lá pra cá, nunca se curou desse vício que é empreender, mesmo depois de passar quase duas décadas em grandes empresas, onde se especializou em novos negócios e startups. Atualmente desenvolve negócios na área de representação comercial e fez da Upstairs seu mais recente porto seguro.