Recentemente, no último dia 29 de setembro, um empresário de abrangência mundial anunciou que vai criar um novo produto, único, para atender a todos os públicos e a todo seu mercado. E que esse produto novo, num pacote único, vai canibalizar sua linha atual composta por ofertas variadas.

Detalhe: a linha atual tem pouco mais de 7 anos e só nos últimos dois atingiu seu pleno desenvolvimento. Na verdade, uma parte da linha atual nem sequer foi lançada ainda! Louco? Dizem que dinheiro e sucesso demais são péssimos conselheiros e que pessoas muito bem sucedidas acabam se tornando megalomaníacos e arruinando suas empresas.

Arrogante? Muita gente batendo nas suas costas e dizendo o quanto você está sempre certo parece ser uma receita infalível para o fracasso no longo prazo. Mas esperem, a história fica muito pior: os produtos dos quais estamos falando não são refrigerantes, pares de tênis, smartphones, caixas de som Bluetooth… não, nem de longe. Estamos falando de foguetes do tamanho de prédios de 25 andares. Sim, foguetes.

O empresário é Elon Musk e a empresa, SpaceX. É difícil desconsiderar quando Elon Musk afirma algo. No passado, ele disse que ia fazer o primeiro carro comercialmente viável totalmente elétrico, que ia custar mais caro que muito Porsche e andar mais rápido que uma Ferrari e que todo mundo iria querer um… e a Tesla está ai, a todo vapor. Obrigou a indústria automobilística a reagir e inovar em meia década o que se recusou a inovar em meio século.

De quebra ele disse que os carros da Tesla também iam dirigir sozinhos, um dia desses… e você pode olhar no YouTube, se não acredita em mim: https://www.youtube.com/watch?v=VG68SKoG7vE (repare no final do vídeo, quando o ‘motorista’ desce, deixa o carro sozinho e ele procura uma vaga e estaciona sem ninguém
dentro). Um dia os donos acordaram e, ao sair de casa, o carro disse que se eles quisessem ele podia dirigir sozinho, para variar um pouco. É, os carros da Tesla ficam melhores sozinhos, simplesmente baixando atualizações da internet, igual o seu telefone. Outra coisa impensável até há pouco tempo e que já virou padrão da indústria graças ao Elon Musk.

Voltando para foguetes, é bom mencionar um detalhe: os foguetes da SpaceX que ele quer aposentar prematuramente sobem, colocam o satélite em órbita e voltam pra terra, pousando sozinhos e muitas vezes numa barcaça balançando em alto mar. É, não estou brincando: o foguete volta para casa para ser usado de novo: https://www.youtube.com/watchv=oa_mtakPlfw

Aí você deve estar se perguntando: eles passaram anos desenvolvendo uma tecnologia que parece coisa de ficção científica, ao custo de bilhões de dólares que ainda não se pagaram e agora vão fazer um outro foguete, inteiro novo, que aposenta este? É isso mesmo?

É. É isso mesmo.
E isso é uma lição para todos nós.
Não vou explicar as razões, vocês podem ver direto da fonte: https://www.youtube.com/watch?v=E4FY894HyF8

É longo para os padrões imediatistas mas vale muito a pena. Afinal, é um empreendedor que está demonstrando como podemos colonizar outro planeta hoje usando tecnologia existente, e não para por ai! Mesmo não explicando as raões, vou comentar sobre as implicações. Quantas vezes você não se apegou a uma ideia, processo, produto e fugiu da inovação por que pensou no quanto tinha investido (de tempo, emocionalmente, em dinheiro, tanto faz)? Quantas vezes te disseram que você não podia ser inconstante, que tinha que levar até o fim o que começava?

Elon Musk tem um motivo forte e coerente para fazer o está se propondo, matar o próprio negócio para erguer outro sobre ele: não há dinheiro o bastante para desenvolver as duas coisas. A atual está comprovada e é viável. Mas a nova é o que vai garantir o futuro. Para garantir o futuro, sacrifica-se o presente.

Essa estratégia não funciona para tudo, é óbvio. Mas o empreendedor não pode deixar de parar de vez em quando e se perguntar: o que é que eu estou perdendo por estar muito apegado ao meu negócio? Que futuro estou comprometendo por me recusar e ver com olhos críticos o meu presente?

Foram-se os tempos em que podíamos herdar os negócios de nossos pais e avós e continuar fazendo a mesma coisa até passa-la para nossos filhos e netos do mesmo jeito que a encontramos. Hoje, a mudança é a regra do jogo.

Em tempo: eu sei que já se falou muito sobre esse tema, sobre se reinventar, sobre matar o seu negócio para recriá-lo, sei que estou chovendo no molhado. Apenas a coragem e a visão do Elon Musk foram demais para mim, não consegui ficar calado. De fato, o assunto é tão velho que o finado Andy Grove, um dos fundadores da Intel, escreveu um livro inteiro sobre isso em 1999! Se não leu, recomendo: https://www.amazon.com.br/Only-Paranoid-%20Survive-Exploit%20Challenge/dp/0385483821

E se o que você leu ainda não fez total sentido, vamos voltar mais uma vez para os foguetes: os russos continuam lançando os mesmos foguetes que foram desenvolvidos a cinquenta anos atrás. A mesma tecnologia, cem por cento amortizada e confiável, faz o trabalho com um excelente custo/benefício.

São eles hoje os únicos que mandam carga e astronautas para a estação espacial internacional, situação que vai mudar muito em breve com a entrada da SpaceX nesta tarefa. Os lucros desse negócio mantiveram boa parte da economia russa de pé em face das sanções que enfrentam em outras frentes.

Mas será que foi mesmo um bom negócio para os russos? Eles tiraram o máximo de proveito de uma tecnologia (a famosa vaca leiteira) e agora correm o risco de se tornar obsoletos da noite para o dia. E não aproveitaram o sucesso para criar uma opção de futuro: como cegos sendo conduzidos por outro cego, se agarraram à corda e foram em frente, contando que o mercado jamais iria deixar de precisar deles. E em poucos meses podem ter seus últimos contratos cancelados. Pois seu custo benefício deixou de fazer sentido com um concorrente que não joga fora o foguete inteiro a cada lançamento mas os reaproveita.

Qual a reação dos russos frente a essa ameaça? A mesma que já vimos em outras frentes: cortaram custos, cortaram preços e insistiram com a tecnologia antiga. O pensamento é que o preço é o maior diferencial. Até que o segundo foguete explodiu no lançamento. Cortar custos tem as suas consequências e quando estamos falando de foguetes, essas consequências tendem a ser bem graves: http://www.slate.com/articles/technology/future_tense/2017/03/russia_s_space_program_is_in_trouble.html

Em qualquer negócio, comprometer sua qualidade para continuar existindo nunca é uma aposta segura.

Colaborador dessa coluna:


Danilo José Fernandes
50 anos, abriu sua primeira empresa aos 17. De lá pra cá, nunca se curou desse vício que é empreender, mesmo depois de passar quase duas décadas em grandes empresas, onde se especializou em novos negócios e startups. Atualmente desenvolve negócios na área de representação comercial e fez da Upstairs seu mais recente porto seguro.